Com o pé na estrada

No longa Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa, a
profundidade da noite evoca um país a ser revelado
O primeiro esboço de Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa foi escrito em 1994. Com o amadurecimento do roteiro, o protagonista deixou de ser um mero ladrão de carros e se tornou um jovem de classe média cheio de nuances, na faixa dos 23-27 anos. Essa é a idade em que o indivíduo é cobrado a afirmar seu papel na sociedade, embora às vezes não passe de um adolescente de espírito. E se o personagem pegasse a estrada para encontrar sua essência, em vez de fazer o que todos esperam dele?
Essa e outras perguntas motivaram a concepção de um roteiro de forte apelo geracional. Em fase de captação de recursos, o primeiro projeto de longa de Gustavo Galvão (e da 400 Filmes) revolve os impasses de uma juventude espremida entre a ausência de perspectivas e o excesso de incertezas. E o faz sem melindres e com algum humor. O misterioso Pedro personifica essa geração da mesma forma que o imprevisível Lucas, seu parceiro de viagem. Ambos estão à deriva na estrada – logo, na vida.
Pedro e Lucas se conhecem numa lanchonete em algum lugar de Goiás. Estão apenas de passagem, só que não sabem para onde seguir. O que os levou até ali? As dúvidas que permeiam os personagens os condicionam a um estado de inquietação constante, reforçado pelas experiências que vivenciam num fim de semana insólito.
Para introduzir as referências estéticas e conceituais por trás desse projeto, desenvolvido com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, uma série de textos será postada aqui no decorrer de 2009. Trata-se de uma releitura pessoal de alguns dos mais inventivos road movies da história, dirigidos por nomes como Godard, Lynch, Jarmusch e Kiarostami. Servirá de base para a coletânea o material escrito por Galvão para a mostra Outros Rumos, realizada em Brasília, Rio e São Paulo, em 2005.