A estética do (quase) nada

ESTRANHOS NO PARAÍSO
Estados Unidos, 1984, 90 min.
Diretor: Jim Jarmusch
Direção de fotografia: Tom DiCillo
Montagem: Jim Jarmusch, Melody London
Com: John Lurie, Eszter Balint, Richard Edson, Cecillia Stark
Jim Jarmusch queria fazer um filme. Juntou amigos, dinheiro e um fiapo de história. Para incrementar aquela que viria a ser a base do cinema independente norte-americano, o cineasta se saiu com um ingrediente bem a seu gosto: o humor que quase não é humor, que resvala no melancólico e no patético ao seguir tipos absolutamente banais. É o que se vê em Estranhos no Paraíso, paródia minimalista de uma sociedade sem nada a dizer.
Inicialmente pensado como um curta-metragem e produzido em três fases, Estranhos no Paraíso é daqueles filmes que representam com precisão uma época – o início dos anos 1980 nos EUA, com uma geração carente de propósitos. Jarmusch dispensou um roteiro elaborado ao narrar a inglória viagem de um jovem inútil com o amigo alienado e a prima recém-chegada da Hungria. Os três, entediados até o dedão do pé, deixam Nova York e vão para a Flórida. Com uma parada em Cleveland.
Jarmusch seguiu na contramão dos road movies pós-Easy Rider, os quais investiram na estrada e nas belas paisagens sem fim como metáforas da sociedade em transformação. Em plena Era Reagan, coube ao cineasta abolir planos dinâmicos e recorrer ao preto-e-branco, aos planos estáticos e aos tempos estendidos. Essa crueza reflete uma juventude estagnada na própria mediocridade. E assim se firmou um artista sem igual – que fez a ponte (aparentemente improvável) entre a Nouvelle Vague francesa, a vanguarda norte-americana e uma parcela significativa do cinema oriental, de Ozu a Tsai Ming-liang.
* O texto acima dá seqüência à série sobre filmes de estrada, uma reflexão sobre o gênero na carona de UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA – projeto de Gustavo Galvão em fase de captação de recursos.