Gustavo Galvão

Crônicas libertadoras

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Simone Spoladore e Júlio Andrade em Nove Crônicas
para um Coração aos Berros (foto de Fred Chalub)

Admiro os filmes pessoais, filmes assim costumam me pegar de jeito. Tenho a sensação de descobrir algo íntimo – que o realizador confessa em segredo, ou deixa escapar meio sem querer. Essa intimidade me interessa cada vez mais, daí a fascinação que sinto por filmes “pequenos”. Tanto que decidi fazer um. Fiz alguns curtas-metragens dessa forma, sentia que havia chegado a hora de fazer um longa. Tinha muitos sentimentos guardados dentro de mim, precisava liberar tudo isso com urgência.

Não sei ao certo quando começou essa aventura de fazer um longa-metragem com pouco dinheiro, de forma independente e urgente. O que eu lembro bem é que estava obcecado por artistas que faziam o que queriam com o que dispunham. Era setembro de 2009. Tive a oportunidade de passar uns dias em San Francisco e Nova York, o que ativou histórias que guardava fazia muito tempo. Essas histórias ainda me tocavam e a vontade de torná-las visíveis palpitava em mim. Em novembro, comecei a chamar os amigos para fazermos um filme. Pois é, um longa: Nove Crônicas para um Coração aos Berros.

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André Frateschi, Carolina Sudati e Vinícius Ferreira,
em outra cena do filme (foto de Cristiane Oliveira)

As histórias que compõem o filme foram desenvolvidas como textos livres, voltados para temas cotidianos e destituídos das amarras de um roteiro cinematográfico típico. Por isso decidi usar o termo “crônicas” no título. São nove histórias que se mesclam e se deixam contaminar, todas elas sobre um mesmo tema: pessoas que se encontram numa espécie de encruzilhada em sua vida, que precisam se renovar logo, senão… Sei lá. O importante é mudar.

Lembro do dia em que convidei Denise Weinberg para fazer parte do elenco. Foi no dia 12 de dezembro, estava em vias de preparar um grande time – já havia confirmado com Leonardo Medeiros, Júlio Andrade, Larissa Salgado e Vanise Carneiro; em poucos dias, fechei com André Frateschi, Mário Bortolotto, Simone Spoladore. Naquela tarde de 12/12, acertei a participação de Denise. Antes, porém, ela me perguntou de quem era o “coração aos berros”. “É meu!”, respondi sem hesitar.

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Larissa Salgado (foto de Cristiane Oliveira)

Tal qual os personagens que começavam a ganhar vida a cada conversa e a cada ensaio, eu também sentia uma necessidade absurda de me reinventar. Foi com esse sentimento, tão evidente em meus olhos e nas minhas falas, que abordei os 24 atores e a maior parte dos técnicos. Inclusive parceiros antigos, como é o caso de André Carvalheira (diretor de fotografia), Marcius Barbieri (montador), Jimi Figueiredo (trilha sonora), Larissa Salgado e Vinícius Ferreira (atores). Com o talento e a entrega de todos eles, seguimos o objetivo de fazer um pequeno-grande filme.

Rodamos oito das nove histórias entre 27/02 e 05/04. Basicamente nos fins de semana e feriados, como nos tempos do cinema mudo – um caso célebre no Brasil é o de Adhemar Gonzaga com o personalíssimo Barro Humano (1929). Em 17 dias, passamos por cerca de 25 locações em São Paulo e arredores, com o objetivo de compor uma cidade fictícia, estagnada no tempo (o que está longe de ser São Paulo). Não se trata de um filme paulista, e sim de uma produção bem brasileira, composta por profissionais de Brasília, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro… E sensivelmente influenciada por minha relação com Brasília, a capital “cinquentona”.

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Denise Weinberg (foto de André Carvalheira)

Nasci, cresci e me tornei cineasta em Brasília. Foi nessa cidade que percebi as relações que se estabelecem entre o homem e o espaço urbano. Dediquei até alguns curtas a essa questão especificamente pelo viés brasiliense. Agora, com essas Nove Crônicas para um Coração aos Berros, amplio a questão ao abordar a arquitetura como reflexo das relações na contemporaneidade. As nove histórias acontecem numa metrópole não-identificada. As tramas ocorrem quase sempre em ambientes fechados, com paredes descuidadas, desbotadas, sujas. Estão todos em ruínas aqui: as pessoas e os lugares.

Com essa premissa estética levada a extremos, equipe e elenco puderam tocar adiante a proposta que lancei desde o princípio, a de estarmos disponíveis para a experimentação. Ao nos libertarmos desse ditador chamado “naturalismo”, transitamos entre os mais diversos gêneros, entre os mais diversos estilos. O filme finalizado deverá ir do intimista ao nonsense. Em alguns momentos, por sinal, os extremos se misturam. Como as histórias. Como a vida.

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Vanise Carneiro e Rita Batata (foto de Fred Chalub)

Essa dualidade (ou ambigüidade, ou paradoxo) corresponde ao drama que acomete boa parte dos personagens nesse grande painel de sonhos, frustrações e transformações. É que a mudança supõe um impasse entre a necessidade de se reinventar e o medo de errar. Acredito nas pessoas (e nos filmes) que não têm medo de errar. “O objetivo pelo qual todo filme deveria lutar é nos transportar a um lugar diferente”, Bertolucci disse certa vez. É o que repito para mim há meses, desde que decidi embarcar nessa aventura.

Equipe técnica
Direção, roteiro e produção: Gustavo Galvão
Co-roteirista e assistente de direção: Cristiane Oliveira
Direção de fotografia: André Carvalheira
Direção de arte: Valéria Verba
Técnico de som: Ricardo Reis
Produção executiva: Thalita Ateyeh
Produção de set: Gabriel Nascimento
Concepção de figurino: Carolina Sudati
Figurinista: Samyra Oliveira
Produção de arte: Flávio de Souza
Assistente de câmera: Vivian Faria
Still: Cristiane Oliveira e Fred Chalub
Montagem: Marcius Barbieri
Trilha sonora: Assis Medeiros e Jimi Figueiredo
Finalização de som: Miriam Biderman e Ricardo Reis
Uma produção 400 Filmes, Effects Filmes e Ludofilmes

Elenco (por ordem alfabética)
André Frateschi / Cacá Amaral / Carolina Sudati / Charly Braun / Cristiano Karnas / Denise Weinberg / Eucir de Souza / Evelyn Ligocki / Felipe Kannenberg / Júlio Andrade / Larissa Salgado / Leonardo Medeiros / Marat Descartes / Marcelo Coutelo / Mário Bortolotto / Paula Cohen / Plínio Soares / Ramiro Silveira / Rejane Zilles / Rita Batata / Rodrigo Bolzan / Simone Spoladore / Vanise Carneiro / Vinícius Ferreira

* O longa-metragem Nove Crônicas para um Coração aos Berros se encontra em fase de captação de recursos para a finalização. Mais informações serão publicadas ao longo do ano, nesse site.

3 Responses to “Crônicas libertadoras”

  1. Mauro.G Says:

    Putz Galvão…
    Bravo pela coragem de cometer seu primeiro longa com essa pegada. Para quem conhece sua trajetoria não é lá tão surpreendente, mas é animador. Bom, sou mais do que suspeito pra simpatizar com propostas de filmes plurais em tramas e narrativa. Sabes que me encanta o fato de você ter agido em parceria com a Cris nessa empreitada. Que os nove berros de seu coração ecoem em nossas emoções.

    Forte abraço,
    Giuntini

  2. Gustavo Says:

    Obrigado pelas palavras, Mauro. Elas dão força para seguir na luta, em busca de recursos para a finalização.

    Quanto aos filmes plurais, eles são realmente especiais. Eles permitem uma abordagem mais abrangente das relações humanas, cada personagem abre um leque de possibilidades incríveis. Estou fascinado por esse tipo de narrativa. Ao contrário do que muitos pensam, essa admiração não começou com os filmes do Altman. Ela começou por acaso: enquanto lia “Iniciantes”, do Raymond Carver, descobri um filme sueco chamado “Vocês, Os Vivos”, do Roy Andersson. De repente, as misérias humanas saltaram aos olhos de uma forma completamente inesperada.

    Abração,
    Gustavo.

  3. gumelo Says:

    Pena que minha cidade não tenha um cinema onde passe um circuito alternativo, para que pudessemos ver um filme diferente como esse.

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