Gustavo Galvão

Cinema contra a mesmice

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O dramaturgo Mário Bortolotto está no elenco de Nove
Crônicas para um Coração aos Berros (foto: Fred Chalub)

Certo dia, uma amiga francesa me perguntou porque os longas brasileiros não correspondem às expectativas geradas pelos curtas que fazemos por aqui. Programadora de um festival internacional, ela identifica nos curtas aos quais tem acesso a busca por uma estética que fuja do óbvio. Para ela, o mesmo não se aplica à maioria dos longas produzidos nos últimos anos.

Atrás de respostas, discutimos as possibilidades. Falamos do modelo de financiamento no Brasil, que se fundamenta em critérios subjetivos para a análise de projetos e coloca empecilhos para a renovação de abordagens; falamos do setor privado, que ignora o potencial artístico desse país; falamos também dos realizadores, claro. São muitos os que abrem mão da ousadia com a ilusão de que podem fazer cinema popular com o investimento insuficiente que obtêm de estatais e governos.

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Júlio Andrade e Denise Weinberg (foto: C. Oliveira)

Foram dois dias falando sobre isso. Ainda assim, não sei se respondi com propriedade. Trata-se de uma realidade com muitas nuances. Hoje, envolvido com a montagem de Nove Crônicas para um Coração aos Berros, percebo que ainda tento responder à pergunta. Não com palavras, mas com o filme. A forma como ele foi concebido, a forma como foi realizado e os objetivos que estamos perseguindo destoam do habitual no contexto brasileiro.

Primeiro superamos a cobrança por um roteiro à moda dos manuais e com algum apelo extra-narrativo (comercial, social ou moral), requisito implícito para determinar o destino do dinheiro investido em cinema no Brasil. Em momento algum existiu um roteiro formal, e sim nove histórias desenvolvidas por mim e pela co-roteirista Cristiane Oliveira. Estas foram submetidas aos atores, que puderam recriá-las a cada ensaio. Reescrevemos diálogos e situações. Até o caráter de alguns personagens foi repensado nesse processo intenso de construção dramatúrgica.

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Felipe Kannenberg (foto: Cristiane Oliveira)

Curiosamente, esses ensaios trouxeram à tona o que havia de pessoal nas histórias. Esclareceram porque elas me atraíam tanto, mesmo quando não passavam de rascunhos. Pude notar um grau de identificação semelhante em boa parte do elenco. Isso se deve ao fato de que os ensaios nos permitiam resgatar o básico, o essencial de ser humano. Esse era o princípio que nos guiou: entender como o humano se manifesta, sem juízos de valor nem concessões ao senso comum.

As idéias se renovavam até o último take de cada plano. No entanto, nunca nos sentimos à deriva. A base de tudo, inclusive do trabalho com os atores, foi definida antes, nas conversas com os parceiros mais próximos – o diretor de fotografia André Carvalheira, a diretora de arte Valéria Verba e o técnico de som Ricardo Reis; além de Cristiane Oliveira, que também atuou como assistente de direção. Ao convidá-los para o projeto, deixei claro que cada crônica poderia tomar rumos inesperados. Era indispensável que criássemos uma proposta estética sólida, que costurasse essas narrativas. É aqui que a “cidade” se impôs como uma protagonista oculta.

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Simone Spoladore e Vinícius Ferreira (foto: F. Chalub)

Desde 2007, vivo com um pé em Brasília (cidade planejada) e com o outro em São Paulo (megalópole caótica). Sempre me identifiquei com o “lado B” da megalópole, com suas casas largadas à própria sorte, com suas paredes maculadas pela poluição e pelo tempo. Esses lugares transmitem para mim uma instigante sensação de vivência. Eles existem, estão diante de nós, mas não são percebidos. Já me senti assim. Que sentimento é esse? Ele é a chave para entender as histórias que compõem o filme.

Estávamos conscientes do peso que as locações teriam na definição da cara do filme. Sempre acompanhado de Cristiane e de Valéria, vasculhei São Paulo atrás daquela sensação de vivência. Procuramos lugares que necessitassem de pouca ou nenhuma interferência cênica. Encontramos casarões transformados em cortiços, hotéis entregues aos ácaros e até um quartinho de fundo de quintal, utilizado como banheiro de coelhos.

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Eucir de Souza e Larissa Salgado (foto: C. Oliveira)

Logo entendemos o sentimento que se manifesta em mim sempre que contemplo o “lado B” dessa cidade: é o vazio desesperador provocado pelo abandono. Disso resultou a premissa de situar a ação em ambientes decadentes. Em vez de indicar a condição financeira, os ambientes atuam no inconsciente do espectador e ilustram o estado de espírito dos personagens. Assim superamos outra barreira, a redução do drama humano a questões sociais ou econômicas elementares – prática recorrente entre aqueles que fazem cinema no Brasil, bem como entre aqueles que julgam o cinema feito na América Latina, tão plural quanto o universo que representa.

A idéia inicial consistia em evitar uma justificativa social ou moral para as tramas, permitindo que estas se alimentassem das próprias contradições e das sutilezas de comportamento. Todo mundo tem sua miséria particular. Seja a prostituta cansada de trabalhar, seja o funcionário público exemplar. Nesse aspecto, dar vazão à necessidade de mudança é mais que um ato de sobrevivência. Enfrentar o abandono significa combater a indiferença, a mesmice. Por isso levantei o filme de forma tão determinada, porque ele traduz o tamanho da minha inquietação.

* O longa-metragem Nove Crônicas para um Coração aos Berros se encontra em fase de captação de recursos para a finalização. Mais informações serão publicadas ao longo do ano, nesse site.

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